Rosas a Buenos Aires

Escreva. Sistematicamente. Escreva.

Curta. Viva. Dance. Saboreie. Revolucione.

Deixe-se levar pela música, pelos acordes da sanfona, pelo flerte do tradicional com o moderno. O resultado será o novo.

Fui com minha mulher ontem à noite ao espetáculo – faz jus – do Gotan Project, essa banda chamada de francesa e de alma portenha. Comedidos e soltos ao mesmo tempo, os sete integrantes permitem viajar. Cada qual no seu lugar.

Que coisa boa é ser livre. Pelo menos sentir-se livre para sonhar e ver a vida através da lente da espontaneidade que flui leve.

Durante o show, dá uma vontade enorme de extrapolar fronteiras, só que esta noite é o mundo que vem nos procurar.

Nem a minoritária e ridícula soberba carioca em balbuciar vaias quando a música seguinte seria inspirada numa das cidades mais lindas do mundo – desta vez, Buenos Aires – atrapalhou o momento. Rápido, os aplausos sufocaram a vergonha desnecessária.

O Gotan consegue confundir histórias em plataformas distintas. Acho fantástico quando música, luzes, dança, fotografia, teatro e sombra se aglutinam para manifestar uma mensagem plural e multifacetada, cabendo a cada um grudá-la ou desconstruí-la como quiser.

Pergunto-me, em meio ao turbilhão de pretensões artístico-narrativas que brota naturalmente, por que não estou criando. Renasce a vontade de reunir textos e associá-los e cresce a curiosidade em dar luz a repentinos trechos de vida do cotidiano anônimo. Impera a teimosia de querer ir além.

Na saída, carrego este élan flamejante e uma pequena frustração de não estar mais ligado à arte. Resta, porém, um agradável eco, a reverberar por alguns dias.

Palmas para Paris.

Beijos para Buenos Aires.

RJ: 5,6% do eleitorado possui “superior completo”

Quando se trata de grau de escolaridade, no estado do Rio de Janeiro, apenas 5,6% do eleitorado pode assinalar a opção “Superior Completo”. Tendo como parâmetro a média no eleitorado nacional (3,8%), o dado não é tão ruim. Os números são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na região Sudeste, o estado fluminense detém o maior índice: São Paulo possui 5,5%, Minas Gerais tem 3,4% e o Espírito Santo, 3,5%. Por outro lado, os analfabetos e aqueles que garantem simplesmente “ler e escrever” representam 12,7% no Rio.

O dado pode não ser alto se comparado a alguns estados do Nordeste, como Maranhão (38,3%) e Alagoas (39,2%). No entanto, é superior a estados do Sul como Santa Catarina (11%) e Rio Grande do Sul (10,1%). O Rio também fica atrás de São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil, onde 10,4% dos eleitores “lê e escreve” ou nem isso.

Uma das possíveis interpretações dos números sugere que o Rio de Janeiro deva, sobretudo, redobrar a atenção quando se trata do ensino básico. Não é à toa que o Rio foi o segundo pior estado do Brasil, atrás apenas do Piauí, no último Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgado em julho.

O estado fluminense é o terceiro maior colégio eleitoral do País, com 11,5 milhões de eleitores. Destes, mais de 3,5 milhões de cidadãos (30,7% do eleitorado) iniciaram o ensino fundamental mas não o concluíram.

Resumo da ópera. Não está em discussão o direito constitucional do voto nem sua obrigatoriedade – embora o tema possa gerar debates futuros. O importante é analisar que condições milhões de eleitores brasileiros possuem para blindar-se contra campanhas demagógicas que prometem mundos e fundos.

Que subsídios o Brasil dá para que milhões de eleitores reflitam sobre seu voto e seus futuros governantes e representantes?

O funk ainda busca do seu lugar

Criminalizado durante anos, alvo de preconceito, instrumento de mudança social, oportunidade de trabalho, reflexo de uma realidade negligenciada, liberdade de expressão. Um ano após o reconhecimento do funk como movimento cultural e musical de caráter popular, o ritmo ainda está no início de sua caminhada para fazer cair a discriminação.

Há pouco mais de um ano, em 1º de setembro de 2009, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou a lei 5.543, reconhecendo o funk como movimento cultural e musical de caráter popular. “O funk saiu das delegacias de polícia para ser debatido no poder público”, diz o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), relator da proposta.

Na ocasião, a Alerj também revogou uma lei aprovada em 2008 pela própria assembleia. De autoria do ex-chefe de polícia e deputado cassado Álvaro Lins, a lei 5.265 endurecia as normas sobre bailes funk e raves. Freixo destaca a preponderância da participação de funkeiros conscientes para a mudança do quadro. “Podiam perfeitamente ter se entregue à lógica do ‘proibidão’, à lógica dos bailes onde o Estado não determina nada. Mas não, procuraram a Assembleia, entenderam que o caminho do funk tinha que ser o do reconhecimento, do profissionalismo, do respeito à legislação. O mérito é desses funkeiros que fizeram esse movimento, que hoje estão na APAFunk.”

APAFunk quer dizer Associação dos Profissionais e Amigos do Funk. Existe oficialmente há dois anos. MC Mano Teko, vice-presidente da associação, comemora os louros legislativos, mas está ciente de que a causa ainda engatinha. “O que melhorou foi o diálogo com as autoridades. Finalmente, nós conseguimos ter um diálogo com o Ministério Público, secretaria de Cultura, Educação, Turismo e a própria secretaria de Segurança”, afirma.

Algumas dificuldades estão na regulamentação. O baile funk atualmente tem que atender às mesmas normas que qualquer outro evento público de entretenimento. Entre as exigências constam a presença de câmeras nos acessos e dentro do local do baile, detector de metais, metragem do portão de entrada e saída equivalente ao público estimado e tratamento acústico adequado no ambiente da festa.

“É inviável. Como é que o pobre na favela vai seguir as mesmas condições?”, reclama Mano Teko. A antropóloga Adriana Facina concorda que o gargalo da questão está, sobretudo, na organização dos bailes em favela. “Nas áreas que não têm UPP [Unidade de Polícia Pacificadora], as negociações com os comandantes de batalhão são sempre muito escusas, muito complicadas, envolvendo corrupção”, denuncia.

Justamente por tal prática, o deputado estadual Jorge Babu (PTN) foi condenado no último dia 20 pelos crimes de concussão (exigir vantagem em razão do cargo) e formação de quadrilha. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) entendeu que Babu e três funcionários da Vara da Infância liberavam a promoção de bailes funk mediante o pagamento de propina. “É isso o que acontecia com a lei do Álvaro Lins. As pessoas não conseguiam seguir as regras e se sujeitavam a esses xerifes que existem aí pelo Rio”, explica o vice-presidente da APAFunk.

Tabajaras, celebrai

No dia 28 de agosto, a comunidade pacificada da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, zona sul do Rio, voltou a se embalar no ritmo do funk. Foi o primeiro baile permitido numa área de UPP. “A conquista da lei é muito importante. Só que o outro desafio, é o respeito à lei. A realização do baile nos Tabajaras foi uma afirmação da validade da lei do funk”, destaca Adriana Facina, que além de antropóloga é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Entusiasmando, sim. Satisfeito, não. Mano Teko conta que o baile só foi viabilizado após a chegada do capitão Senna, aberto ao diálogo. O MC só vai sossegar quando o ritmo popular estiver permitido e organizado em todas as comunidades do Rio, sejam elas pacificadas ou não. E mesmo com o sucesso de crítica e de público do baile nos Tabajaras, o preconceito ainda é um estigma. 

“A primeira coisa que a polícia fazia quando chegava na área ocupada era dizer: aqui não tem baile funk. Ouvi isso de vários capitães, da capitã Patrícia, da UPP no Dona Marta. É totalmente absurdo ela achar que é dona do Dona Marta. E ela não está ali para ser xerife”, critica Mano Teko.

“Se nós continuarmos a não debater o funk ou fingir que ele não existe, esse tipo de baile que incomoda tanto [com som altíssimo, letras impróprias, consumo de drogas] vai continuar acontecendo. Não vai nem entrar em discussão, porque se é dito que é crime e toca em lugar proibido não há o que fazer”, alerta o deputado Marcelo Freixo.

Para Facina, na imprensa, nos quarteis e nas camadas conservadoras da sociedade, a percepção do funk permanece associada ao crime e ao tráfico de drogas. “Na visão da polícia, Eliminar o tráfico de uma favela é também proibir baile funk. Coibir o funk é um instrumento de controle geral, um controle que não passa só pela posse de armas e de drogas, mas de comportamento, de interação social”, desvenda a antropóloga.

Consciência X Mercado

Contudo, também possuem responsabilidade para mudar a imagem do ritmo característico do Rio de Janeiro aqueles que o fazem existir. Ligado ao funk desde os 16 anos de idade, Mano Teko, hoje com 32, diz não ter compactuado com a lógica do “proibidão” e continua na árdua batalha para que outros MC’s abracem a causa.

“O mercado pornográfico é a coisa que mais vende hoje. Por mais que a gente dê a informação, a gente não pode obrigar o profissional a fazer nada, até porque sou contra a censura. O nosso principal é mostrar que tem um outro caminho que dá certo, com uma linguagem legal”, precisa. No entanto, Mano Teko admite que muitas vezes a arte da persuasão pela consciência é vencida pelas escabrosas leis de mercado. “Os caras vão pelo caminho que é mais fácil”, lamenta. Mano Teko, que persevera pela rota mais sinuosa, tem esperanças de que possa começar a viver da própria expressão cultural a partir do mês que vem.

Há cinco anos, ele ouviu de uma rádio carioca que se as músicas de sua autoria não fossem nem de apelo sexual explícito nem “proibidão”, elas não seriam tocadas. Segundo ele, a realidade hoje nas rádios já está melhorando, há programas de grande audiência cuja playlist reduziu muito o pancadão repleto de vulgaridades ou apologias criminosas.

“Nenhum ritmo pode fazer apologia. Nem no funk, nem no samba, nem do rock, nem no forró. Ninguém pode fazer apologia. E quem faz está fora da lei”, alerta Marcelo Freixo, para quem a melhor maneira de reduzir a força do “proibidão” é estimular a produção de um outro funk.

A noção de apologia, de acordo com o vice-presidente da APAFunk, também é relativa. “Se eu fizer um funk contando a história do filme Cidade de Deus, vão considerar que estou fazendo apologia. E porque no cinema também não é considerado apologia?”, lança o debate.

A Copa começou

A Copa do Mundo começou hoje. Às 13h, olhos e ouvidos atentos. Minto. No centro do Rio de Janeiro, esperava comoção maior. O vai-e-vém continuou intenso como de costume, com poucos pontos de concentração de cidadãos ansiosos e preocupados com essa crucial questão de interesse nacional.

No entanto, às 13h06, mesmo longe de qualquer televisão ou rádio, já era possível conhecer quais eram os homens escolhidos pelo capitão Dunga. Bastava atenção às conversas alheias. Maicon, Daniel Alves, Ramires… eram nomes que brotavam das calçadas.

“Josué! Jo-su-é!!! O Dunga tá usando a Bíblia pra escalação?! Daqui a pouco vai começar a chamar Moisés, Jacó…”, protestava um torcedor ateu.

Entre os prédios da agitada Avenida Rio Branco, circulava também um silêncio suspeito. A primeira TV de restaurante esclarece:

O Imperador está fora.

No seu lugar, entra Grafite.

Urros e sussurros passeavam ainda meio tímidos pelo centro ensolarado. Uns apoiavam Dunga: “Bem feito pro Adriano, agora ele pode ficar perdendo seu tempo aqui”. Outros bradavam adjetivos pouco elogiosos ao capitão do tetra, prenunciando que a batalha já está perdida. “Humpf! Isso aí não é seleção! Vai vendo só, vai vendo só… %$#*&!”, resmungava o de cabelos brancos.

Fato é que agora os 23 já foram escolhidos. Ponto final. São eles que vão tentar colar mais uma estrela na nossa amarelinha. Que o grupo não traz lá expectativas de um futebol tão inspirador, isso é verdade. Que tem muito volante defensivo no elenco, correto. Que falta criatividade no meio-de-campo, sim. Mas cá entre nós, não estamos diante de nenhuma tragédia. Temos a segurança de um Lúcio e um Júlio César lá atrás, uma arma secreta chamada Daniel Alves, a velocidade do Ramires, o oportunismo do Luís Fabiano, a sorte do Grafite, um Kaká que pode desequilibrar.

Agora é cruzar os dedos, resgatar superstições, fazer cálculos, trocar figurinhas, esperar e torcer.

A Copa começou.

 A estreita Rua do Carmo já sustenta bandeirolas verde e amarelas, daquelas bem simples mesmo, feitas grosseiramente com papel celofane barato amarrado num barbante cortando a passagem pelo alto. O brilho delas resgata instantaneamente a lembrança de 16 anos atrás, da primeira Copa que a memória alcança, quando as ruas enfeitadas e quietas se esvaziavam para ver a Seleção jogar.

Mudam os personagens, os adversários, o contexto, o peso da bola, o continente, a infra-estrutura. Pode mudar o que for. Pode passar o tempo que for. A fantasia da Copa é a mesma!

Up!

Jesus morreu e ressuscitou. Meu amigo Mahmoud comemorou a entrada da primavera. Amigos partilharam do pão e do vinho. Iranianos puseram vestes novas. Todos trocaram presentes, bolos, chocolates. Longe de casa.

Os cristãos celebraram a ressurreição de Cristo neste último domingo. Dias antes, em 20 de março, precisamente às 9:32 da noite – horário de Teerã – iranianos e outros povos espalhados pela Ásia Menor e os Bálcãs celebravam o ano novo persa (Nowruz).

Existe uma mensagem em comum nas duas celebrações – ressalvando que o Nowruz não é uma data islâmica, muito embora o Irã seja um país de maioria muçulmana.

A mensagem é a de recomeço. De purificação, celebração entre os queridos, de olhar para frente almejando o positivo. De se renovar e ir à luta, sem ficar pensando em negligências ou escolhas ruins lá de trás. Novo gás.

Será que tal recomeço pode ocorrer numa anônima madrugada de segunda para terça-feira? Pode.

Será que querer o positivo pode estar fora de moda? Não pode.

Será que palavras de amor e ternura podem valer mais do que figuras espinhosas? Podem.

Será que o realismo pragmático pode adquirir maior importância do que os sonhos e as ambições ainda não concretizadas? Não pode.

Será que posso recuperar a força e as cores de um realismo fantástico? Pode.

Será que eu posso me dar ao luxo de desistir perante as vicissitudes de uma realidade que não está fácil pra ninguém? Não pode.

Será que ainda posso me esforçar pelo que acredito, ainda que sejam devaneios e objetos imateriais? Pode.

Será que posso desabafar sem tomar nenhuma atitude em seguida? Não pode.

Para o Nowruz, Mahmoud, agrônomo iraniano de 30 anos que imigrou para o Canadá e vive em Montreal, reuniu-se com compatriotas para celebrar un nouveau départ, um novo começo. Mesmo longe de sua terra, de sua família e de suas origens, Mahmoud confessa ter o mesmo sentimento de quando ele estava no Irã, isto é, está feliz com o retorno da primavera e contente com o novo ano que sempre traz perspectivas otimistas e renovadas.

Mas o Nowruz também o faz sentir a distância, não somente física, mas psicológica em relação ao seu país. “Mesmo que o Irã esteja passando por um processo de mudança e eu o acompanhe de longe, estou convencido de que nunca mais poderei revivê-lo. Talvez tenha sido eu quem mudou demais.”

Ele solta essas palavras, sem rancor ou arrependimento. Tomou sua decisão, está ciente das conseqüências dela no tempo e no espaço, está comprometido com atuais projetos pessoais onde vive e pode concluir que “não sente falta de estar lá (no Irã)”. A própria liberdade, Mahmoud parece ter encontrado. Mesmo longe de casa. Mesmo com diferenças culturais e humanas gritantes. A busca para detectar parâmetros inteligíveis é árdua. A reconstrução interior é dura. A percepção de que o passado é implacável é indigesta.

Mas…

Será que ficar preso a quatro paredes, a uma tela e a um bloco pode levar alguém a algum lugar? Não pode.

Será que posso querer suar a camisa para conseguir uma vida financeira mais tranqüila? Pode.

Será que os ‘nãos’ podem vir em doses cavalares? Podem.

Será que isso me abalará? Não, meu amigo, não pode.

E nem vai.

Continência para o Herói

O dia 31 de março de 1964 não começa na alvorada. Para o garoto de seis anos, aquele dia claro de outono nasce na véspera, quando seu pai fora libertado.

A libertação de seu pai não se dá no dia 30 de março. A libertação de seu pai se dá cinco dias antes, quando de sua detenção no forte da Urca. Vozes anônimas irresponsavelmente soltas pelas galerias e vãos de um prédio na Praia Vermelha instalavam a apreensão no pequeno coração de olhos atentos. “Oficiais estão sumindo”, sussurrava-lhe ao pé do ouvido seu pior temor. Enquanto isso, compartilhando sua solidão com outros seis metros quadrados, aquele major do Exército se via atrás das grades de seu próprio idealismo, de sua verve patriótica e sua vontade de construir.

O dia 31 de março de 1964 começa, na verdade, no Natal de 1963, quando o garoto abre entusiasmado o presente escolhido. Capacete, colete, cassetete, cinturão com cartucheira e pistola de espoleta – um kit de guerra.

A manhã daquele 31 de março de 1964 prenunciava os tumultos que marcariam a história do País – uma Junta Militar derrubaria o governo de João Goulart, simpatizante ao comunismo. Como que por instinto herdado de sua criação, o menino pressente o latejar do conflito. Ele lembra, assombrado, de um selo postal que vira com a figura da foice e o martelo sobre o mapa do Brasil. Pelo que escutava em casa, tinha horror do que poderia acontecer se a mensagem do selo se concretizasse. Ele retira triunfante seu presente de Natal do armário e se coloca a postos. Da varanda coletiva, as generosas pestanas observam receosas os movimentos de tanques que surgem rápidos da Avenida Pasteur em direção à Praça General Tibúrcio. Chama a atenção um detalhe fundamental: os tanques se movem apontando a artilharia para a retaguarda; o intuito é garantir a proteção das cabeças que fazem parte do Instituto Militar de Engenharia (IME) e do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA).

Na manhã daquele 31 de março, a criança veria seu pai entrar decidido pelo corredor do apartamento 614 e sentiria fisicamente a indignação desse dia decisivo. Mesmo imbuído do espírito de prontidão, o jovem soldadinho volta a ser filho e se alegra ao ver o corpo paterno se aproximar. A inquietação do herói rasga a expectativa do filho e dá-lhe um involuntário, porém, vigoroso, esbarrão. Pistola para um lado, moleque para o outro. Obstinado, o major encontra sua Colt 45 e sai resolutamente contra a luz. Não viu que o filho já estava novamente de pé e lhe batia continência.

O pequeno soldado tivera medo de nunca mais ver o próprio herói quando este esteve preso. “Cadê? Pra onde ele foi? Por que não me levou junto?”. Tentando acalmar o espírito contestador do garoto, respondiam que o pai estava no quartel. E quando o filho pôde ir visitá-lo no estranhíssimo quartel de seis metros quadrados, foi como se não houvesse grades, tamanho era o ímpeto do major em mostrar-se bem diante de seus herdeiros e radiante pela inesperada visita à caserna improvisada. Um líder não pode esmorecer perante seus comandados.

Naquele 31 de março de 1964, o herói demorou a voltar. Quanto? Bastante tempo para o coração de um garoto de seis anos.

Muda a música.

Na memória infantil, a precisão temporal se esvai, mas o registro permanece. Nas lembranças de criança, tudo é superlativo. Durante a manhã daquele 31 de março de 1964, a televisão ligada exibia em preto e branco cenas de tumulto no centro do Rio de Janeiro ao som de hinos cinzentos. Salto brusco. À noite, o tom muda radicalmente: sai o pesar para dar lugar ao triunfalismo.

Nos olhos azul-acinzentados do major, transparece o sentimento de um dever cumprido. Nas recordações do pequeno soldado, admiração e alívio por ver seu herói em casa.

É até onde consegue ir hoje a memória daquele garoto de seis anos…

As Três Lições de Razieh

O filme “O Balão Branco” (1995) foi o primeiro longa-metragem do diretor Jafar Panahi. Atualmente, ele é um dos mais proeminentes cineastas iranianos, vencedor de prêmios nos festivais de Veneza, Cannes e Berlim. Em março deste ano, ele foi detido pela polícia iraniana e, na véspera do ano novo persa (nouroz), libertado. A justificativa da prisão foi vaga: “declarações ofensivas”. Cabe lembrar que nas últimas eleições presidenciais Panahi apoiou o candidato oposicionista Mir Hossein Moussavi contra Mahmoud Ahmadinejad. Fora do cárcere, o cineasta está proibido de cruzar as fronteiras de seu país. Mas não seu trabalho.

Embora “O Balão Branco” não seja considerado um filme político, ele desliza algumas sutilezas sobre a sociedade iraniana. Pensadas em 1995, curiosamente elas são bem aplicáveis numa discussão sobre a atual realidade na República Islâmica do Irã.

“Quero ver aquilo que não me deixam ver”

A narrativa é conduzida pela garota Razieh, de sete anos, que sai em busca de um peixinho dourado para comemorar o ano novo persa. Ela não se contenta com os que já tem na vila onde mora sua família, pois aqueles são magrinhos. A garota de olhos verdes e expressivos quer um peixe gordinho, que parece dançar quando mexe as barbatanas. Quando sai de casa com o dinheiro para comprar seu peixe, Razieh se depara com um grupo de homens que assiste ao espetáculo de dois encantadores de cobras. A menina já foi advertida por sua mãe de que ali não era lugar para uma garota estar sozinha. Mesmo assim, movida pela curiosidade própria de uma criança e pelo mistério do não-permitido, Razieh se esgueira pelo grupo até conseguir ver o que está acontecendo. O que será que o povo iraniano está tentando ver hoje? Será a liberdade de expressão e o respeito aos direitos humanos? Será a autonomia de instituições fortes e confiáveis num regime verdadeiramente democrático? Será por mera curiosidade infantil que parte da população se revolta contra posturas do atual governo? O que haverá por trás desse “grupo de homens”, aiatolás, guardiões, homens políticos, instituições jurídicas comprometidas? No filme, a garota chega até o centro da roda, vê-se metida numa situação que lhe provoca apreensão e medo, mas é capaz de recuperar o que é seu e sai dali. Assustada, mas sai.

“A culpa é sua”

Em seguida, Razieh perde novamente o dinheiro com o qual ela iria comprar seu tão desejado peixe. Uma senhora resolve ajudá-la e se oferece a levá-la de volta à mãe, a quem diria que perda da nota não fora culpa da garota. A ingenuidade juvenil então questiona de quem é a responsabilidade. “A culpa, na verdade, é sua. Mas vou dizer a tua mãe que não é”. Ora, de quem é a responsabilidade pelo contexto que vive o Irã atualmente? Em 1979, a Revolução Islâmica levou milhões às ruas. Ovacionaram a volta do aiatolá Khomeini do exílio e pulverizaram o poder do xá Reza Pahlevi, muito ligado a potências ocidentais. A culpa pela radicalização da teocracia islâmica recai sobre os ombros da população? Seria simplista demais afirmar isso, além de impreciso e injusto. Esse assunto merece uma discussão mais profunda e detalhada, que não cabe agora. Mas ressaltemos também que Ahmadinejad foi eleito duas vezes seguidas – sem deixar de lado as denúncias de que o último pleito foi fraudulento.

Por outro lado, não há como desprezar a interferência de agentes externos. Os Estados Unidos financiaram Saddam Hussein na guerra entre Irã e Iraque. Fazer amizade com aquele que por muito tempo quis te ver no chão não é tarefa simples para nenhum cristão… nem muçulmano.

Mesmo após provar o sabor amargo da venenosa política americana do passado, as potências ocidentais vão punir o Irã impondo-lhes pesadas sanções econômicas e os isolando ainda mais? Será realmente este o melhor caminho rumo à reconciliação? E mais: as partes estão realmente interessadas numa reaproximação? Com quais interesses?

“Precisa de ponta”

Razieh descobre a nota dentro de um bueiro. Ela e seu irmão tentam recuperá-la, sem sucesso. Por cima das grades de metal, eles se ajoelham e tampam a claridade fixando as duas mãos perto dos olhos que observam, ora passivos, ora inconformados, a possibilidade de um peixinho dourado e de um ano novo feliz. A solução vem de maneira inesperada: um vendedor de balões que exibe seus produtos num bastão. Na verdade, o bastão sozinho é inútil. Precisaria de uma ponta afiada, capaz de espetar a nota e trazê-la para cima. Ou de um chiclete.

A ponta faz doer. Fura a nota, atravessando-a. O chiclete é grudento. Ele cola, se aglutina e até se confunde com o papel. Furar e grudar são duas ações traumáticas, deixam marcas. Contudo, têm uma finalidade digna. Da mesma forma – pode parecer muito piegas a metáfora, mas vai mesmo assim – uma imprensa livre e comprometida com preceitos básicos do jornalismo independente é fundamental para a saúde de democracias e regimes que respeitem direitos do homem como cidadão e indivíduo. A imprensa tem o dever de furar, de penetrar, de buscar a verdade, de perfurar uma sociedade para poder enxergá-la melhor, de tocar nas feridas discriminadas. E tem a função de grudar, no sentido de fiscalizar e ficar próxima do poder a fim de impedir abusos e violações.

Por si só, a liberdade de expressão não é garantia. Ela é, no entanto, uma janela. Ela ventila, melhora o ar que se respira, espanta mosquitos inconvenientes, permite novas idéias e novos questionamentos. No filme de Jafar Panahi, a pequena Razieh é grande em sua personalidade. Decidida a conseguir o que quer, às vezes traída por sua inocência, mas corajosa em exigir aquilo que lhe pertence por direito e obstinada a se fazer escutar.

Uma discreta janela trazendo oxigênio para casa.